Quando foi formalmente empossado como presidente em exercício da União Africana em 10 de fevereiro de 2024, na Cimeira Ordinária em Addis Abeba, Etiópia, o presidente angolano João Lourenço assumiu mais do que uma presidência rotativa. Assumiu a responsabilidade simbólica de conduzir um continente pressionado por crises de segurança, tensões institucionais e as disputas geopolíticas globais do início da década de 2020. O seu mandato, agora concluído, deixa um rastro de iniciativas diplomáticas, mediações delicadas e um empenho reiterado na centralidade africana nas decisões que dizem respeito ao próprio continente.
A posse e o peso do momento
Ao discursar na Cimeira de 10–11 de fevereiro de 2024, em Addis Abeba (Etiópia), Lourenço destacou que “a África só será próspera se consolidar a paz e a integração regional como fundações permanentes do seu desenvolvimento”. A declaração, embora protocolar, sinalizava o tom pragmático que marcaria toda a sua liderança: menos retórica ideológica e mais diplomacia de bastidores.
A mediação no conflito da RDC
Um dos dossiês mais sensíveis do seu mandato foi o conflito no Leste da República Democrática do Congo (RDC), em particular as tensões envolvendo o grupo rebelde M23.
A crise que se intensificou desde novembro de 2021, com confrontos renovados entre forças governamentais e o M23, tornou-se prioridade diplomática continental em 2024–2025. Foi nesse contexto que, em 15 de julho de 2024, durante uma reunião de chanceleres africanos em Kinshasa (RDC), Lourenço anunciou, em sua qualidade de mediador designado pela União Africana, a criação de um grupo de contacto regional com ministérios das Relações Exteriores da RDC, Ruanda, Uganda e Angola — um passo que visava sustentar um canal permanente de diálogo.
Em 21 de novembro de 2024, durante a Cimeira Extraordinária da União Africana em Luanda (Angola), foi aprovado um mandato estratégico de paz para o Leste da RDC, com a participação de chefes de Estado da região — um documento de compromisso que reforçou a necessidade de redução de hostilidades e de acesso humanitário seguro às zonas afetadas.
A mediação não produziu uma solução definitiva — algo que ultrapassa a esfera de qualquer liderança individual —, mas ajudou a manter abertos mecanismos de negociação. Em 10 de março de 2025, um novo encontro técnico em Kigali (Ruanda) reforçou regras básicas de cessar-fogo temporário, embora não tenha eliminado por completo a insegurança na província de Kivu Norte.
Cimeiras estratégicas e diplomacia ativa
Durante o seu mandato, João Lourenço participou e presidiu diversas cimeiras continentais que moldaram a agenda africana:
- Cimeira Ordinária da União Africana — 10 a 11 de fevereiro de 2024, Addis Abeba (Etiópia): A sessão de posse e de definição de prioridades, com foco na estabilidade constitucional e nos processos de integração econômica.
- Cimeira Extraordinária de Chefes de Estado sobre Comércio e Integração — 19 a 20 de setembro de 2024, Accra (Gana): Esta reunião prioritizou a operacionalização da Zona de Comércio Livre Continental Africana (ZCLCA), discutindo calendários de eliminação de tarifas e a criação de um fundo de apoio à integração industrial.
- Cimeira Extraordinária sobre a Situação no Leste da RDC — 21 de novembro de 2024, Luanda (Angola): Realizada no âmbito da presidência rotativa, esta foi uma das sessões mais importantes do mandato. Reuniu chefes de Estado da região dos Grandes Lagos, chanceleres e especialistas em segurança. Foi aprovado o Plano de Ação de Apoio à Estabilização e Reconstrução da RDC, que incluiu promessas de assistência humanitária e o reforço de mecanismos de paz.
- Cimeira África–Europa — 15 a 16 de junho de 2025, Luanda (Angola): Talvez o evento de maior proeminência diplomática fora do âmbito estritamente africano. Reunindo líderes africanos e representantes da União Europeia, a cimeira abordou parcerias estratégicas em energia, infraestrutura, transição verde, digitalização e segurança alimentar. O documento final, assinado em 16 de junho de 2025, foi apresentado como um compromisso de cooperação “até 2030”, em áreas consideradas críticas para o desenvolvimento sustentável.
Entre a prudência e a firmeza
O traço mais marcante do mandato de Lourenço foi a diplomacia de equilíbrio. Ele não se notabilizou por discursos inflamados, mas por uma articulação diplomática que privilegiou a busca de consenso. Defendeu a ordem constitucional, sem recorrer a sanções automáticas, e reforçou a integração económica sem descuidar da diversidade socioeconómica dos membros.
Críticos apontaram que a União Africana ainda enfrentou fragilidades institucionais e uma dependência financeira contínua de mecanismos externos, fatores que limitaram o alcance de algumas decisões. Outros avaliaram que a organização poderia ter adotado posturas mais enfáticas diante de certas rupturas democráticas, sobretudo no Sahel.
Contudo, a complexidade de governar um organismo que agrega 55 Estados com realidades tão heterogéneas exige conselhos e pactos cautelosos — e a dialética entre firmeza normativa e diplomacia pragmática foi uma constante ao longo de 2024–2025.
Um legado em construção
Ao concluir o seu mandato inédito à frente da União Africana em fevereiro de 2026, João Lourenço deixa um marco associado à estabilidade diplomática e ao reforço da mediação como instrumento prioritário de resolução de conflitos. A sua atuação nos processos relativos à crise do Leste da RDC, a condução de cimeiras estratégicas com datas e resultados tangíveis e o empenho em reposicionar a África nas negociações globais compõem um legado que será avaliado nos próximos anos.
A história raramente concede resultados imediatos às lideranças continentais. O impacto real mede-se no tempo — na consolidação institucional e na capacidade de transformar compromissos políticos em progresso tangível.
Se a África avançar na integração económica, se os mecanismos de mediação se tornarem mais eficazes e se o continente fortalecer a sua voz no cenário internacional, parte desse percurso terá sido moldado pelo período em que João Lourenço ocupou a presidência da União Africana: um ciclo marcado por diplomacia ativa, desafios persistentes e a esperança de uma África cada vez mais protagonista de sua própria

